O papel aceita tudo

Quando falamos em Missão, Visão e Valores de uma organização, temos como pressuposto que os três formem o alicerce em que a empresa optou por se estabelecer, o que nada mais é – ou deveria ser –, do que a extensão do propósito maior dos fundadores, gestores ou proprietários das empresas. E isso, sem dúvidas, serve como uma cartilha a ser perpetuada, como um manual de instruções básico que descreve os propósitos fundamentais do negócio e as virtudes que deveriam ser repassadas ao mercado, aos clientes e a toda cadeia de relacionamentos, os chamados stakeholders.

Porém, o papel aceita tudo, ou melhor, permite que você coloque sobre a mesa tudo o que há de melhor, todas as virtudes que você gostaria que fossem reconhecidas primeiramente por quem está dentro, para depois levar para o público externo. Esse tema é muito debatido em períodos de construção ou revisão do planejamento estratégico, já que é importante fazer uma reflexão periódica para ver se a prática condiz com a teoria.

Muitos trabalham arduamente na construção desses três pilares, incluem no site, nos murais e quadros espalhados na empresa, pedem para os funcionários decorarem, mas esquecem que isso não pode ser visto como pro forma, ou seja, algo feito por mera formalidade, somente para manter as aparências, sem franqueza, sinceridade ou honestidade. Ou é visto como uma política, ou a realidade será muito diferente da teoria. 

Eu não tenho dúvidas que o intuito é sempre o cumprimento, a prática, porém quais são as políticas internas que sua empresa mantém para que isso seja efetivamente cumprido?

Nos últimos tempos, várias empresas criaram as chamadas políticas de compliance para que estas virtudes sejam disseminadas e realmente colocadas em prática. A palavra em inglês significa ‘concordância com o que é solicitado’. E para que vocês compreendam o contexto, uma das definições de compliance é:

‘[…] um conjunto de regras, padrões, procedimentos éticos e legais que, uma vez, definido e implantado, será a linha mestra que orientará o comportamento da instituição no mercado em que atua, bem como as atitudes de seus funcionários” (CANDELORO, 2012, p. 30).’

Tudo isso ganhou muita força nos últimos anos, já que muitas empresas que possuíam políticas éticas e de responsabilidade foram flagradas em esquemas milionários de corrupção no País. E, neste sentido, muitas empresas desenvolveram internamente seus programas de compliance ou programas de integridade, que descrevem desde políticas de gerenciamento de riscos, gestão de processos, códigos de ética e conduta, transparência até sustentabilidade. Mas, voltando ao tema principal, vamos relacionar aqui alguns valores bastante comuns perpetuados pelas empresas:  

  • Transparência;
  • Respeito;
  • Responsabilidade;
  • Credibilidade;
  • Qualidade;
  • Ética;
  • Eficiência;
  • Inovação;
  • Confiabilidade;
  • Simplicidade.

A pergunta que cabe é simples e ao mesmo tempo complexa: os seus colaboradores enxergam isso? Primeiro olhe para dentro, não esqueça! E os seus clientes e toda a sua cadeia de relacionamentos, eles enxergam a mesma coisa?

A resposta da primeira pergunta é de fundamental importância para rever conceitos, processos e corrigir rotas. Quando você faz uma pesquisa interna e muitos colaboradores do corpo de gestão da empresa falam sobre a falta de ética nas ações e um dos valores principais da empresa é ética, o que você pensa a respeito?

Você prega aos quatro ventos que um dos pilares da sua empresa é respeito e quando você ‘vira as costas’ um dos profissionais que deveria ser um exemplo cria uma briga com um cliente por uma questão banal, falando palavras de baixo calão ou os populares ‘palavrões’?

Sim, o tema é realmente complexo e difícil de tratar! O grande problema, ou melhor, virtude nestas palavras é que não existe meia integridade, meia credibilidade, meia ética ou meio respeito. Ou existe ou não existe!

Por mais que eu compreenda que pessoas são falhas e passíveis de erro, elas representam as empresas, portanto a grande questão é como você trata tudo isso e como você corrige os desvios comuns no processo. Lembre-se que uma ação ou um feedback tardio é o mesmo que nada. Especialmente nos dias de hoje, com a rapidez na disseminação de informações negativas.  

Portanto, lembre-se que não existe perfeição, mas que, ao mesmo tempo, pecar por negligência é abrir as portas para a entrada de problemas. Neste caso, por mais que não seja simples, contrate profissionais tendo como alicerce a cultura da empresa, acompanhe de perto o que está acontecendo na prática, trabalhe as lideranças – este é o meio mais rápido para disseminar a cultura da empresa –, invista em treinamento e desenvolva o hábito de avaliar os pontos fortes e fracos periodicamente. Nunca será simples, mas não existe nada mais saudável para uma empresa do que ser reconhecida pelas suas virtudes, sendo que a principal delas é assumir os erros e implementar ações rápidas para correção.  

Autor do post: Uilker Benkendorf, consultor de gestão da Florença





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